terça-feira, 20 de novembro de 2007

ENTREVISTAS A GEORGE BUSH-II--CAPRICHOS DE GATO


--Mas que merda é esta? Tem calma, pá. O homem ainda não chegou. Parece que és míope….

--Bem sabes que sou míope.

--Vai ver se estou ali na esquina, Alcabideche José. Não sabes o que estás a fazer. Ainda assim, podias muito bem ter escolhido outra profissão, não achas?

-- Eh, que mau feitio o teu. Piriri pipi…Só sei que vou fazer uns planos lindos.

--Isto não é cinema, pá. É televisão!

-- Com mil diabos, Sarja! Se a raça humana à qual pertences não tivesse irrompido neste nosso pequeno mundo, tal evento seria certamente um bem inestimável para a toda a Humanidade.


Eram exactamente oito horas e sessenta minutos quando entrei pela segunda vez na grande Sala Ovale-Tudo, na Casa Branca. Até aqui, tudo normal. No entanto, de tão comovido que estava, mal sentia o corpo e a alma. Como descrever a vasta complexidade de sentimentos que me acometiam nesse ensejo glorioso? Bem, vejam lá se compreendem esta comparação, porque eu não a entendo: como uma ave a fugir da boca suja de um leão que a não persegue, assim me sentia eu, leão sem corpo e sem asas, a não ser devorado pelo bico limpo de uma corpulenta ave sem juba. C’est pas rigolo?

--Vou começar com um grande plano da sala Ovale-Tudo. Que te parece?

--Não sejas inoportuno, pá. Deixa-me pensar.

Ainda hoje tenho bem presente essa notável manhã de luz e imbecilidade. Enquanto o Bush não chegava, o meu espírito pôs-se então a divagar em inconsciência pura pelo mistério sem destino da vida. Instintivamente, ocorreu ao outro eu que então havia em mim um aforismo por que sempre pautara a minha conduta de eterno-anarquista-sabujo-do-poder. “Bem vistas as coisas, a Vida é a vidinha”--escreveu certa vez o filósofo austríaco – (amigo e confidente de Wittgenstein) --Chico von Ratzinger Barata “e quem não pensa assim é uma bestazinha-quadradinha”. Confesso que levei exactamente oitenta e nove minutos a compreender a dimensão em luz viva deste aforismo. Por outras palavras: passei os últimos dez anos da minha druídica e fabulosa vidinha de anarquista sabujo a folhear com metódica satisfação, aos sábados à tarde, o livro mais conhecido deste inútil e obscuríssimo autor:”Bem vistas as coisas, a Vida é a vidinha”. De qualquer modo, os capítulos que li e reli com especial avidez e acuidade foram “E Quem Não Pensa”; (o Jacques Derrida quê se cuide!); “Assim” (um capítulo que examina a influência de Sartre em Zenão de Eleia) e, por fim, “É uma bestazinha-quadradinha” (o meu favorito).


--Gostava de filmar esse tal de Senão da Ilíada. Que tal começar com um contra-picado em braille?

--Lá estás tu a adivinhar-me os pensamentos. Tu e as tuas telepatias de fancaria míope… Não vês que estou a refectir sobre o sentido da vida?

-- Olha, enquanto o Bush não chega, vou ali ao Kuwait e volto já.

--Que a terra te seja leve, filho das Arábias. Não te esqueças, pois, de levar contigo o camelo de borracha que a TVI pôs à nossa disposição.

--Meu, Já voltei. O camelo era bué de rápido. Estive com a Celina Abdullah Ramallah Infante, a tua namorada…

-- Não acho graça nenhuma a essas brincadeiras. Bem sabes que gosto muito dela, embora já esteja a ficar farto de distâncias. Então, como é que ela está?

--Desde que dormi com ela que está bem melhor.


PAUSA PARA O CAFÉ




Daí a três semanas, chegou o Presidente dos Estados Unidos. Naquele dia memórável de intensa tertúlia, George W. Bush entrou mais alto que o costume. Trazia duas tranças louras coladas às têmporas, um bigode de cetim preto, e um gato aninhado ao pescoço. Só mais tarde é que viria a saber que se tratava de um bicho famosissimo na Casa Branca— o Gato-De-Longo-Alcance.Antes de se sentar num cadeirão verde que pedira emprestado ao José Eduardo dos Santos, Bush solicitou aos seguranças que o revistassem, pois tinha medo de estar armado e de correr perigo de vida.

--Ora viva, Mr. Sarja Akhmani. Bons olhos o vejam. Que é que o traz aqui?

--Sr. Presidente…Excelência…Como bem sabe, sou um eterno-anarquista-sabujo- do-poder. Não resisto a lamber as botas a quem quer que detenha o poder, é mais forte que eu. Pode ser um barbeiro, um porteiro, um alcoviteiro. Pode ser a abelha-mestra de uma numerosa colmeia perdida nos arrebaldes da Amazónia. Olhe, até pode ser a filha de um banqueiro. Qualquer poder serve, está a ver?

--Minúcias, meu caro, minúcias. O poder é o poder, tenha ele a dimensão que tiver. Todo o poder é grande, na medida em que é um ponto de vista que pode ser sempre ampliado até à cegueira total, está a compreender?

--Compreendo tudo, Excelência, vindo de si compreendo tudo. Posso apresentar-lhe o Alcabideche José, actual namorado da minha namorada e operador de câmera da TVI?

--Mas é claro que sim. Muito prazer, sr. Alcabideche. Posso tratá-lo por Al?

--Com certeza, sr. Presidente.O prazer é todo meu. Então, gostou do meu filme?

--De que é que o Al está a falar, Sarja?

--Sr. Presidente, Excelência…Lembra-se da última conversa que tivemos?

--Hum. Vagamente. Deixe-me lá pensar. Ah, sim, estávamos a falar de Steven Spielberg, não é verdade?

--Exactamente.

--What about him?

--O meu amigo e actual namorado da Celina do Kuwait, está convencido que é o Spielberg…

--Ora, minúcias, meu caro, minúcias. Eu também estou convencido de que sou o presidente dos Estados Unidos…

--E não é?!

--Vês? Tu és um parvo, Sarja. Afinal, foste chatear o José Eduardo Moniz para nada. Este gajo não é o presidente!

--Tem calma, Alcabideche José. Sr. Presidente dos Estados Unidos…Afinal, quem é o senhor?

--Ora, meu caro, não me vê aqui aninhado ao pescoço do Gato- De-Longo-Alcance?

--…

--Pois. Como vê, o gato é o presidente e o presidente é o gato.

--Quer então dizer que a pessoa que está sentada no cadeirão verde é o gato e não o senhor?

--Exactamente. Você é perspicaz, Sarja. Quanto a si, Al, que é que tem a dizer de tudo isto?

--Acho muito bem que o presidente dos Estados Unidos esteja disfarçado de Gato-De-Longo Alcance. Assim, já posso fazer um travelling para a frente, tirar os olhos ao gato e usá-los como lentes.

--Cala o bico. Sr. Presidente, o Alcabideche José não é o Spielberg, essa é que é a verdade.

--Então quem é o Al?

--É um operador de câmera gordo e míope que se parece muito com algumas personagens do Edgar Pêra.

--Sendo assim, o Gato-De-Longo-Alcance cessa imediatamente as funções presidenciais e passa a ser o Bush que já foi gato, entende?

--Mas é claro que sim. O óbvio e o obtuso.

--Perdão?

--Nada. Falava com os meus botões. Sr. Pesidente, será que podíamos retomar a conversa que tivemos há dias?

--Sim, claro que sim. Falávamos do Spielberg, o cineasta. O autor de “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”, de “Amistad”, “Relatório Minoritário” e desse fabulso filme que o é “Inteligência Artificial”, certo?

--Sim, Excelência. Pelos vistos, gosta muito do Spielberg…

--Hum. Spielberg? Deixe-me pensar melhor. Tem graça. Nunca ouvi falar desse tipo. É famoso?

--Sim, Excelência. Famosíssimo.

--Sarja, já reparaste que as tranças louras do presidente reapareceram nas têmporas do Gato-De-Longo-Alcance?

--Alcabideche José, não interrompas, por favor. Excelência…Quer que lhe fale do Spielberg?

--Hum. Seria interessante. Afinal de contas, como não vou aprender nada consigo, é caso para dizer que a ignorância também não ocupa lugar, certo?

--Tem toda a razão, Excelência. Importa-se que lhe leia uns apontamentos que trago no meu notebook?

--Faça o favor, Sarja.É para isso que servem os jornalistas, não é verdade?

--Ah, claro que sim. Pois então aqui vai:”De origem alemã, Estevão Antunes de Spielberg foi presidente de Israel desde o dia 18 Maio de 1986 até 18 de Maio à tarde do mesmo ano”.

--Sarja, tu topa-me esta cena: reparaste que o bigode de cetim do presidente reapareceu no focinho do Gato-De-Longo-Alcance? Não te parece que o José Eduardo Moniz vai adorar esta reportagem? Afinal, tenho imagens absolutamente inéditas, e não creio…

-- Datze enuff, Alcabideche José! Estou farto das tuas impertinências, sugestões, críticas, alusões, desilusões, queixas, auto-elogios velados, e ingratidões… Estou farto dessas tuas manias, ouviste?

--Bem dizia o presidente que a ignorância não ocupava lugar…

--Com a breca, Alcabideque, deixa-me trabalhar.Além disso, importas-te, por um momento, de descolar da cara do sr. Presidente dos Estados Unidos os teus olhos ramelosos e gorduchos de operador de câmera da TVI?

--No problem, Sarja.O seu amigo míope não constitui uma ameaça séria. Aliás, desde que tomei posse como presidente do mundo que a América está mais segura. Vamos ao Spielberg?


SEGUNDA PAUSA PARA BOMBARDEAR UM PAÍS QUALQUER À ESCOLHA DO GATO-DE-LONGO-ALCANCE




--Com certeza. Acho que me perdi…Ah, já sei onde íamos:” De mais a mais, Spielberg mandou construir um muro em torno das aldeias palestinianas, bombardeou com afecto e simpatia muitas delas, construiu honestos colonatos em território palestiniano, e como se isso não bastasse, aproveitou-se das circunstâncias para os pôr a trabalhar numa fábrica. Foi assim que filmou a “Lista de Schindler”.

--He was a smart guy!

--Claro que era esperto! Acha que o josé Eduardo Moniz me contratou por gostar dos meus lindos olhos?

--Alcabideche, pára com isso!

--Vê lá tu que apesar de míope, consegui ver a boca da Manuela Moura Guedes.

--Essa foi fraca, Alcabideche. Olha, vai lá fora ver se chove.

--Está bem. Acho que vou aproveitar o ensejo para ir até ao Kuwait ver a Celina Ramallah Infante. Olha, já voltei. Este camelo é mesmo bué de rápido.

--Então, que tal está a Celina?

--Está tudo mal... Diz que está arrependida de ter dormido comigo e que continua a gostar do outro que há em ti.

--Ah, óptimo! Sabes, a vida é uma carta fechada para quem tem os olhos bem abertos como ela, e uma carta aberta para aqueles são míopes de espírito como tu, Alcabideche.

--IRRA! Caluda! Datze enuff! Eu, o Gato-De-Longo-Alcance, filho de Isaías e de Jacob, declaro encerradas as tuas conversas com o presidente dos Estados Unidos.

--Chi! Tu… falas como nós?

--Caluda, Alcabideche José! E quanto a ti-mim Bush, bora daqui. Estou cansado de estar parado sem ter país nenhum para bombardear.
Sarja Akhmani

domingo, 18 de novembro de 2007

TLEBS DO AMARAL, ÓRFÃO DE PAI AOS 65 ANOS



Professor jubilado da Universidade de Lisboa, Mário Carvalho Tlebs do Amaral é um dos maiores filósofos e linguístas europeus. É autor de obras como “As Origens Sociais dos Disjuntores Mentais--para uma teoria geral dos Gigantes Magnéticos”, e desse inclassificável livro que dá pelo nome de “Introdução Crítica à Teoria dos Incompatíveis Bifurcantes”. Mais recentemente ganhou alguma notoriedade ao criar a Nova Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário.

Sarja Akhmani (S.A.) – Professor, obrigado por nos receber em sua casa. Talvez seja interessante saber qual foi o motivo que despoletou a criação da Nova Terminologia Linguística (Tlebs).

Tlebs do Amaral (T.A.) – Sabe, vivemos numa época em que os paradigmas mudam todos os dias. O mundo está cheio de paradigmas, é a superstição da novidade. A Austrália, por exemplo, é um paradigma, sabia disso? E a minha vizinha também. O pior é que toda a gente está confusa com os paradigmas da Austrália e esquece os da vizinha. Há uma velhinha que tropeça numa casca de banana e vai-se a ver e é um paradigma.

S.A. -- A sorte dela foi ter escorregado num paradigma.

T.A.--Há coisa de dois ou três meses os paradigmas do meu carro eram redondos e verde-garrafa. A semana passada, porém, o meu filho deu-lhes umas valentes marteladas e pintou-os de azul-bebé. Agora, não só mudaram de cor como são quadrados. Como vê, os paradigmas mudam da noite para o dia, Sarja.

S.A. – O professor deve estar a referir-se aos pára...

T.A. – Não, tanto num caso como no outro os significantes “tropeça/não tropeça na casca de banana” opõem-se estruturalmente a “verde-garrafa/azul-bebé”. O real desliza, está a ver? E tanto assim é que não só deslizou sob os pés da velhinha como não resistiu às marteladas do meu filho…

S.A. – O professor deve estar a referir-se aos pára-lamas do seu carro…

T.A.--O real flutua, essa é que é a verdade. É como se fosse um ídolo de muitos braços, um polvo escorregadio que não só muda de cor quando lhe apraz, como não resiste a umas boas marteladas….

S.A. – Repito: o professor deve estar a referir-se aos pára-lamas do seu carro.

T.A.--Tem toda a razão, Sarja. Normalmente confundo “pára-lamas” com “paradigma”, é um velho hábito meu.

S.A. – Professor Tlebs do Amaral, mesmo assim talvez não seja de todo desinteressante indagar as razões de uma terminologia que tanta celeuma tem provocado nos meios académicos e não só.

T.A.--Sarja, quando se chega a uma certa idade é importante mudar a nossa atitude para com as pessoas e as coisas em geral.

S.A. – A maturidade a tal nos obriga…

T.A.--E não só, Sarja, os paradigmas também. Os paradigmas estão por toda a parte. A Nova Zelândia também é um paradigma, sabia? E a irmã da minha vizinha também. Abre-se o olho esquerdo, e vê-se imediatamente um paradigma. Abre-se o olho direito e lá está outro paradigma a querer espreitar cá para dentro.

S.A.— E a Nova Terminologia, professor?

T.A.--Bom, a criação desta nova terminologia assenta num acontecimento que ocorreu a semana passada. Finalmente fiquei órfão de pai aos sessenta e cinco anos. A verdade é que sempre nos demos mal. Tínhamos discussões brutais. O meu pai estava constantemente a dizer que vivíamos rodeados de parasitas. Para ele, os tipos que não trabalhavam e viviam às custas dos outros eram parasitas, veja-me a cabeça daquele homem. Ele nunca entendeu que era um novo paradigma que estava a emergir. Vai daí, disse de mim para mim: bom, agora que estás morto é que a gente se vai entender….

S.A. – Quer então dizer que criou a Nova Terminologia com o intuito de comunicar com os mortos?

T.A.--Exacto!

S.A. – Com mil diabos! Mas isso é éxtra ór dnário!

T.A.--Na realidade, é um nadinha-ínha espantoso!

S.A. – Daí o facto de aparecerem termos que não lembram ao diabo…

T.A.--Sabe, os mortos falam línguas que não lhe passa pela cabeça. Línguas esquisitíssimas, você nem imagina. Isto é só para lhe dar um exemplo: ainda há dias estava eu todo descansadinho a gozar uma sessão espírita e de repente apareceu-me um fantasma que falava…português.

S.A. – Mas isso é éxtra ór dnário! Para que serve o Espiritismo, Professor?

T.A.--O Espiritismo serve simultaneamente para libertar e retirar. Passo a explicar: se você estiver interessado em progredir espiritualmente, poderá ajudá-lo a libertar a mente do espírito e o corpo da matéria. Por outro lado, se quiser progredir ainda mais, não só o ajudará a libertar a matéria da vizinha, como a retirar o juízo ao marido dela.

S.A. – Mas isso é éxtra ór dnário!

T.A.--Na realidade, o Espiritismo é um nadinha-ínha espantoso.

S.A. – Professor, há quem diga que uma terminologia não tem necessariamente de resolver problemas de descrição de uma língua, na medida em que não é uma gramática. No entanto, não lhe parece que a toda a taxinomia está sempre subjacente uma concepção do objecto que pretende classificar? Sendo assim, não faz muito sentido pôr de parte uma terminologia que deixa muita coisa de fora e substituí-la por outra que também não resolve nada e que ainda se dá ao luxo de complicar o que não explica….

T.A.--Na realidade, a Nova Terminologia é um nadinha-ínha espantosa.

S.A. – O problema é que os professores se deparam a cada passo com incongruências que depois não sabem explicar aos alunos, sobretudo quando estes se lembram de exercer o seu espírito crítico.

T.A.--Engana-se, Sarja. Tal como o meu pai, os professores também já estão mortos. Daí achar que esta Nova Terminologia está perfeitamente adequada a tão afável classe.

S.A. – Professor Tlebs do Amaral, é capaz de especificar melhor a utilidade da Nova Terminologia?

T.A.--Com todo o gosto, Sarja. Veja-se o nome “chaminé.” Dantes dizia-se que era uma nome concreto e mais não sei quê. Ora, que é faz uma chaminé? Expele fumo. Vai daí o ter incluído essa palavra na subclasse dos “tubos de escape das casas”. É bem mais simples, está a ver?

S.A. – Estou a ver…

T.A.--O mesmo ocorre com os clássicos “substantivos colectivos”. As abelhas, por exemplo. A irmã da minha cunhada (que por acaso também é minha mulher) tem uma abelha de estimação que come três quilos de erva por dia. Ora, se a abelha dela está gordíssima e come que nem um alarve, é caso para dizer que o nome que designa um conjunto de abelhas pertence à subclasse dos “Estábulos de vacas de mel”, está a ver. É muito mais simples.

S.A. – E os portugueses, Professor Tlebs do Amaral?

T.A.--Já reparou que ao contrário dos agora entre nós tão propalados nórdicos, os portugueses esqueceram-se do direito à desobediência civil? Veja-se os dinamarqueses. Acha que são atrasados? Que dizer de um povo que vai para a rua manifestar o seu inalienável direito à indignação quando sente que foi enganado?

S.A. –O Fernando Pessoa escreveu algures que os portugueses gostam de governos fortes…

T.A.--Os Portugueses, esses cobardolas ordeiros que se deixam manipular por galos com tiques autoritários? Enquanto os dinamarqueses ainda são vikings, nós não passamos de um nome não animado e nada contável. Por isso, decidi encaixar o substantivo que designa um conjunto de portugueses na subclasse da “Capoeira dos cavalos que comem e calam”. Está a ver? Assim, tudo se torna mais claro.
Sarja Akhmani, repórter iraniano

CONFISSÕES DE UM XIITA DA PAREDE




Parede, 1972. Nasce o Conde Mamute Brancaamp Sobral y Sandwich, exactamente no dia seguinte a um mês qualquer de Março. Aos dois anos de idade, entre ratos e falta de higiene, este filho de mãe incógnita e de pai ainda-por-nascer, foi surpreendida pelo 25 de Abril, pois que só sabia contar até 24.
Em vista da situação extremamente precária dos seus aristocráticos progenitores e eternos parentes da Casa de Bragança, o Conde foi viver com a avó paterna que acabara de dar à luz o pai. Durante três longuíssimos segundos, ensinou-lhe a avó tudo quanto hoje sabe— a inocência mansa de umas mãozinhas infantis a esganar o pescoço a um ganso, a destreza que há num arroto de um sheik islâmico, o esplendor de lixo dos produtos Planeta Agostini, e a largueza barata de um arco-íris a rodopiar na boca da Teresa Guilherme.
Entretanto, a bisavó de Mamute, a condessa Maria Bizantina Brancamp Sobral y Sandwich, uma velhota decrépita de 27 anos, deixara-se seduzir por um cigano ciborgue de baixo custo que abundava na praia de Carcavelos, e horrorizada com a Revolução dos Cravos, foi viver com o amante numa grande capital europeia, mais precisamente ali para os lados do Alto do Pina.
Mais tarde, já homem feito, o Conde Mamute comprou em segunda mão quatro pneus Goodyear e, à força de muita pancada, transformou a avó num branco carro de gelados. Posto que o negócio lhe tenha corrido de feição todos estes anos, ainda hoje tem saudades daquela que o educou, arborizou, acarinhou, capou, adorou, cascabulhou, baptizou, catalogou, banhou, cavalgou, celebrizou, chafurdou, carregou, afagou, chateou, cheirou, chicoteou, chorou, ajudou, e dele cuidou e chupou durante três segundos a fio—o cigano ciborgue da praia de Carcavelos.

Sempre de atalaia, este blogue decidiu enviar ao local o repórter em loop permanente Sarja Akhmani, o das mil faces, desta feita sob a opaca identidade de Norberto Chuang Faria, com a finalidade de entrevistar este Brancamp Sobral formado no colégio alemão dos dejectos domingueiros deixados pelos veraneantes.
Chuang Faria (C.F.) — Muito boas tardes, Sr. Conde Mamute Brancaamp Sobral y Sandwich. A sua cara não me é de todo estranha. Tudo bem consigo e com a vossa excelentíssima família?
Conde Mamute (C. M.) — Bem-haja eu! Com mil raios, cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas…
C.F — Essa expressão aparece numa canção do Sérgio Godinho. Gosta de Sérgio Godinho?
C. M. — C´os diabos, cá na vizinhança nunca ouvi falar de Absorção Interstelar, nem de Aristarco de Samos…Aqui não há nada disso, o pessoal dá-se todo muito bem, graças a Deus. De mais a mais, nunca vi esse tal de Sérgio Gordinho nem mais gordo nem mais magro. No entanto, posso mudar repentinamente de ideias e dizer-lhe que já o vi aqui deitado na praia com uma gaja boa ao lado. Nunca se sabe…Tem piada, as suas fuças também não me são de todo estranhas….
C.F.— Muda muito facilmente de ideias?
C.M. — Nada disso! Está muito enganado! Deixe-me dizer-lhe que sou mais teimoso que o mais casmurro dos burros. Você faz-me lembrar alguém que em tempos conheci…Não importa…Ainda há três minutos, teimei com o Ti Manel da Redoma Verde que a terra era redonda e acabei agora mesmo de chegar à conclusão que isto anda tudo muito quadrado dos cornos…
C.F — Mesmo assim, continuo a pensar que o Sr. Conde muda muito rapidamente de opinião…
C.M. – Mas isso é um absurdo! AH! AH! AH! Eu mudar facilmente de opinião…Você dá comigo em doido…Que disparate! Não, sim, não, sim, mudo muito rapidamente de ideias. Porquê?
C.F. – Por nada. Apenas curiosidade. Como vai o negócio dos gelados?
C. M. --Quanto aos gelados, a coisa vai de avó em popa.
C.F — A propósito de avó: já alguma vez a condessa sua avó se queixou de a ter transformado num carro de gelados?
C.M. — Nuuuunca! Bom, certa vez a gaja levantou alto a cabeçorra loura dos Sandwich da Parede, abeirou-se dos intelectuais cá da zona, atestou o depósito cerebral com meio litro de conceitos, afiou as unhas brancas de nobre animalidade e travou, a súbitas, várias polémicas nos jornais com o José Gil, o Eduardo Prado Coelho, o Eduardo Lourenço e a Teresa Guilherme…O diabo! Essa ficou-me de lição…
C. F.—A sério?
C.M.— Palavra!
C.F.— Que maçada…
C.M.— Que parva!
C.F.— Que mulher!
C.M.— Que Minerva!
C. F.— Que Eva!
C.M.— Uma questão de lana-caprina, afinal. Ela dizia que sim e o José Gil que não, que não era nada daquilo, e ela “ora toma que daqui não levas nada”, e o José Gil “dá-me cá aquela palha que não sabes com quem é que estás a falar”, e eu “mas que é que se passa com vocês? e eles, em uníssono, “não se passa nada, não metas o bedelho onde não és chamado, raios partam o teu bedelho, raios partam aqueles que disseram raios partam o teu bedelho"...Enfim, uma interminável discussão em torno do conceito de “bedelho em si e para si” em Kant, Hegel e Meinong…

C. F.—A sua fisionomia não me é de todo estranha…Como é que tudo isso acabou?
C.M.— Eu cá não estive com meias medidas e enfiei-lhe imediatamente nas fuças malcheirosas um par de estalos em dolby surround, um pontapé na boca e um rabanete no rabo. Daí para cá, nunca mais abriu o bico.
C.F.— Humano, como sempre. Como se enquadra Vossa Excelência no actual panorama de oferta de rabanetes religiosos?
C.M.— Olhe, ainda há dias comprei uma garrafita de Catolicismo ao Ti Manel da Redoma Verde, mas aquilo vinha tudo furado por dentro e por fora...
C.F.— Acha que terão sido os ratos que abundam na habitação de Vossa Excelência quem roeu a rolha da garrafa?
C.M.— Nada disso! Que disparate! As coisas não são assim tão simples…Por quem me toma você, afinal? Pensa que sou parvo e deixo os ratos à solta? Aquilo está tudo sob controlo, ouviu? Hum...Pensando melhor, tem toda a razão: foram os ratos lá de casa.
C.F.— Posso então concluir que Vossa Excelência ainda é católico?
C.M.— Claro que sim! Vou todos os domingos à missa trocar gelados por calos de padres. Aliás, já há muitos anos que faço colecção de qualquer coisa. Espere…Acabei agora mesmo de sentir uns pechisbeques nos tomates…Uma tontura esquisita...Cheguei a pensar que ia cair para cima, em direcção às nuvens…mas não foi nada que.
C.F.--Como?
C.M.— As coisas são assim mesmo. Ainda que. A não ser que. Vocês estão sempre a. Às vezes ponho-me a pensar que. Afinal, anda aqui um homem a. Raios partam o Ti Manel, o tal que. Por outro lado, que sabem vocês, os? Ouvi dizer que vocês estão sempre a. E quando não. Está a ver como é que?
C.F.— Sim, estou a ver…
C.M— Além dixo, se voxi soubexi o que eu xinto quando.
C.F.— Que se passa? Sente-se bem, senhor Conde Mamute?
C.M.— Não se paxa nada. Chiça! Parece que o Ti Manel da Redoma Verde se enganou no diacho da garrafa…Afinal, o palhaxo vendeu-me a garrafa do Xiismo…Agora sou xiita…
C.F.— Que tem um xiita da Parede que os xiitas do mundo inteiro não tenham?
C.M.— Chiu! Caluda! Todo aquele que manda calar ox outrox é um xiita da Parede. Chiu um xiita, perxebe? Além disso, falamos axim. Chiu, agora xou xiita, perxebe? Me xiita xou, perxebe? Chiu, xiita, me xiita sou. Ou seja: xiita xou-me, perxebe?
C.F.— …
C.M— Outra característica dos xiitas: fazer dos xilenxiados inimigos por tudo quanto é xítio…

C.F.— Inimigos!?
C.M.— Xim, chiu, caluda, agora sou xiita, ouviu? Inimigos? Felixmente temo-los em muitox xítios. Quer exemplos? Os hititas da Buraca, os albigenses do Alto do Pina, o efeito Doppler na boca da Teresa Guilherme, os índios Hopi de Odivelas, os artrópodes e os branquiópodes que escrevem sonetos monossilábicos na Amadora, o sistema hexadecimal do caranguejo fónix da silva, os sunitas do Estoril e os ahamaricanos que se não foxe o Buxe xeriam xertamente muito mais, tá a ver?
C.F.— Estou a ver…
C.M.— Xim, não, nim, não, xim, talvez, ouviu?div>
C.F— Sr. Conde…
C.M.— Caluda, pá, estou a penxar!
C.F--…
C.M-- Axo que vou fazer como esse tal de Sérgio Gordinho e fundar uma banda de gordinhos que divulgue os ideais xiitas…Uma banda gástrica que dê nas vistas e vá à televixão…Uma coisa digna de se ver. Que te parece, ó filho da luz?
C.F.— Já posso falar, Sr. Conde?
C.M.— Abre lá a torneira…
C.F.—A sua cara….
C.M— Xim, já sei! Deixa-me em paz. Que pretendes de mim?
C.F.— Qual é o seu verdadeiro nome?
C.M— Já disse e repito: xou o Conde Mamute Brancaamp…
C.F.— Qual conde, qual carapuça! Tu és a Maria Clara Varas Verdes de Miguéis, a minha rica filha!
C.M.— Como!? Parece que é parvo...
C.F.— Sim, tu és a Maria Clara, a minha filha…
C.M.— Olha, vai chamar pai a outro…
C.F.— Lembras-te das intermináveis discussões que tínhamos cá na praia, entre os dejectos dos domingos e a dejecção das segundas-feiras, em torno das contradições da Teoria da Relatividade do Einstein?
C.M.— Einstein? Tás maluco, pá! Desse gajo nunca falámos. O que sempre constituiu o pomo das nossas discórdias foi a Teoria Quântica do Eisenstein…
C.F— Ma-Mamute Brancamp Sobral y Sandwich, aliás, Maria Clara…Tens toda a razão, minha filha…Era do Eisenstein de quem falávamos…
C.M— Em todo o caso, também nos fartávamo de gozar com a fuga do Eisenstein para os Estados Unidos, como se os nazis lhe quisessem fazer algum mal…Aliás, está provado que o Holocráustico nunca existitu....
C.F.— Tens toda a razão, Maria Clara…
C.M.— Espera lá…Não és tu o tal idiota que julga ter criado uma teoria do Euromilhões com base nas teses do Edward de Bono e que ainda para mais diz ser a minha mãe piano ciborgue?
C.F.— Xim, não, xim, não, xim, não!
C.M— Que queres dizer com isso?
C.F.— Piano ciborgue!? Cigano, filha, sou a tua mãe cigano ciborgue.
C.M— Sim, o tal cigano ciborgue…
C.F.— Sim, sou o Norberto Chuang Faria, tua mãe…
C.M.— Sendo assim, vem a meus braços, Norberto Chuang Faria, minha mãe!

C.F.— Vem a meus braços, Mamute, aliás, Maria Clara, minha rica filha….
Sarja Akhmani, repórter iraniano

ALEXANDRA SOLNADO LIDERA CRUZADA CONTRA O IRLÃO





Alexandra Solnado, a conhecida vedeta do misticismo lisboeta e caricatura de seu pai, vai liderar uma Cruzada contra o Irlão. Para tal, irá reunir já amanhã no Largo do Rato um exército de bonecas insufláveis opus dei.
De Bíblia em riste e caras feias no rosto, as bonecas de Alexandra planeiam destruir magnificamente todo o léxico português de origem árabe, assim como todos os apelidos mouriscos tais como "Souto Moura" e "Pirilampo Mágico". Mais tarde, porém, quando tudo o que houver a fazer neste pequeno mundo já lhes tiver acudido ao espírito, voltar-se-ão acto contínuo para o pai meteorito da Cidade Santa de Meca. Em seguida, tencionam arranjar rapidamente um equívoco qualquer para que possam andar à bulha umas com as outras.

Entretanto, Sarja Akhmani, o mais-que-perfeito incompetente repórter iraniano a viver actualmente em Portugal, deslocou-se ao local muito antes de tudo isto ter sido concebido:
--Alex, minha, parabéns por seres filha de quem és!
--Obrigada, simpático! Pareces um boneco todo feito de sarja…
--Tem graça! Chamo-me precisamente Sarja Akhmani, e sou solteiro.
--Tou-me nas tintas pra isso, pá!
--Além disso, sou simpático e bom rapaz…
--Sorte a tua, sarja de solteiro, filho da luz e das trevas de todos os repórteres!
--Hum...Hum…
--Sim, que queres tu, ó meandro de um qualquer escaravelho?
--Bem, em primeiro lugar, gostaria de felicitar-te pela ruptura que estás a instituir no panorama da nossa contemporaneidade pós-moderna….
--Bolas para ti e para os fedelhos dos teus Derridas!
--Alex, ouvimos dizer lá no blogue do Sarja que pretendes organizar uma Cruzada contra o Irlão, essa região autónoma tão longínqua quanto problemática. Que tens tu a dizer de tudo isto?
--Bem, como deves saber, eles são tão perigosos quanto nojentos e como se isso não bastasse, julgam que se bastam a si próprios, tal como nós pensamos que nos bastamos a eles.
--Com efeito!

A CRUZADA DA ALEXANDRA SOLNADO TEM O PATROCÍNIO OFICIAL DO BANCO TOTTA E SATANDER. QUEM É SIMPÁTICO, QUEM É?

--Depois, kiss my pussy, a coisa está feia, pois Jess Cristo tem-me dito amiúde que sim, que vá, que veja, que seja, que intervenha, que reponha, que componha e recomponha aqueles trastes de barba de cereja, herbívoros do haxixe e muleques do deserto, caricaturistas do meu Salvador Peter Pan.
--Pera lá, Alex! Quem caricaturou as santas barbas do Salvador foram os Irlanianos do Norte, os europeus, vulgo dinamarqueses…
-- E depois?
--O teu pai sabe o que estás a fazer?
--Mas é claro que sim! Ele até diz que tenho mais graça do que ele!
--Alex, sejamos pragmáticos: nem tu nem as tuas amigas insufláveis opus dei têm condições para derrotar um país como o Irlão, armado até aos dentes, rico em petróleo e gente pobre, coeso em torno de uma forte causa comum….

--Nós somos as Solnadas de Cristo! Além disso, dispomos de uma falange, “os Remediados do Tomate”, que irá dar cabo em três tempos dos “Acanhados da Pélvis”, a elite do exército do Irlão….
--Estou a ver…
--E temos a razão do nosso lado, a razão dos oprimidos da caricatura, a razão que se explica a si mesma, a razão suficiente, a razão que põe e dispõe as razões conforme lhe dá na gana.
--Que é para ti o Irlão, Alex?
--Pá, é basicamente um estado de espírito, uma coisa, uma coisa que está dentro e fora de nós, tás a ver? Quando olhas para bem longe, pões uns óculos e passas a ver as coisas mais de perto, isso é Irlão, percebes?
--Compreendo. Alex, planos para o futuro?
--Bem, para já vamos descer a rua de S. Bento e apanhar o cacilheiro no Cais do Sodré. Depois, far-me-ei explodir na cidade santa de Al-mada. Uma vez aniquiliado o exército inimigo, voltamos para casa, pois tenho de estar na Fnac do Colombo às 19 h.
Sarja Akhmani, repórter iraniano

OS TRÊS CÍRCULOS PERFEITOS





A POLÍCIA CONSOME DROGA QUE CONSOME A POLÍCIA QUE CONSOME DROGA QUE CONSOME A POLÍCIA QUE CONSOME DROGA.


A POLÍCIA CONSOME CONSUMIDORES QUE CONSOMEM A POLÍCIA QUE CONSOME OS CONSUMIDORES QUE CONSOMEM, PORQUE A POLÍCIA CONSOME A POLÍCIA QUE CONSOME.


A POLÍCIA DROGA OS DROGADOS QUE DROGAM A POLÍCIA QUE DROGA OS DROGADOS POLÍCIAS QUE DROGAM OS POLÍCIAS DROGADOS QUE SE DROGAM COM OS DROGADOS DOS POLÍCIAS.


MORAL DA HISTÓRIA: DE BAFO EM BAFO SE CONSOME UM POLÍCIA.
Sarja Akhmani, repórter iraniano

sábado, 17 de novembro de 2007

GOVERNO DÁ PODER À ERC PARA CENSURAR TELEVISÕES




De acordo com a última edição do Expresso, "a nova lei da TV permite ao regulador interromper programas em directo". Dito isto, o censor-mor deste blogue, Zezé Fernandes-Censor-Mor-deste-blogue, entrou imediatamente em contacto com o melhor de entre os piores repórteres da História do Jornalismo português, Sarja Akhmani de seu nome, pedindo-lhe que entrevistasse o Secretário de Estado da Censura.

Como é por de mais sabido, Sarja Akhmani encontra-se actualmente nos Estados Unidos numa missão que tem tanto de pioneira quanto de piolheira: estudar o fenómeno George W. Bush.

Uma vez chegado a Portugal, Sarja Akhmani dirigiu-se à Secretaria de Estado da Censura onde foi prontamente informado da ausência do governante. No entanto, a recepcionista, simpática, apressou-se a arranjar-lhe Um Qualquer Senhor Secretário de Estado da Censura:

"Temos cá muito disso. Veja lá, ainda ontem estive a limpar os armários e deitei no lixo alguns secretários de estado da censura. O problema é que eles contaminam de tal maneira os caixotes do lixo onde são depositados que os detritos deixam de poder ser reciclados. Olhe, você está cheio de sorte. Acabei agora mesmo de encontrar um deles no caixote do lixo. Vá, experimente este Um-Qualquer-Senhor-Secretário- de-Estado-da-Censura e vai ver que não se irá arrepender…

"Sarja Akhmani (S.A.) — Um-Qualquer-Senhor-Secretário-de-Estado-da- Censura, qual é o verdadeiro intuito desta lei?

Um-Qualquer-Senhor-Secretário-de-Estado-da-Censura (U.Q.S.S.E.C.) — Repare, esta lei tem o intuito de um dia ter um intuito qualquer.

S.A.— Não lhe parece perigoso atribuir poderes censórios a órgãos presumivelmente independentes, mas que um dia podem ganhar asas e voar?

U.Q.S.S.E.C.-- Como seria de esperar, não poderia estar menos de acordo consigo. A ERC não tem qualquer parceria com a Boeing, nem com a Airbus, pelo que a curto prazo é humanamente impossível que venha a ganhar asas.

S.A— Um dos atributos da ERC é evitar "o incitamento ao ódio político". Um-Qualquer-Senhor-Secretário-de-Estado-da Censura, não lhe parece demasiado ambíguo este tipo de formulação?

U.Q.S.S.E.C. – Repare, nos tempos que correm, só governa quem souber produzir discursos ambíguos. Só assim é que a Direita se moderniza em Esquerda moderna, percebe?

S.A— Posso lembrar-lhe que na RTP já existe para o efeito um Provedor do Espectador?

U.Q.S.S.E.C. -- Sim, já existe, mas ainda não foi criado.Vê? Você também está a ser ambíguo. Além do mais, esta lei visa interromper emissões em directo em que estejam ministros do governo português a produzir discursos pouco claros e enganosos…

S.A— Como!? Terei compreendido bem as suas palavras?

U.Q.S.S.E.C. -- Compreendeu, meu amigo. Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que todos os nossos governantes tomam ou tomaram Prozac com alguma regularidade, pelo que...

S.A.— A minha alma está parva!!! Ainda bem que a simpática da recepcionista me indicou o senhor…

U.Q.S.S.E.C—Em segundo lugar, é preciso proclamar bem alto o que só pode ser dito em voz baixa. Fiz-me entender?

S.A.— Perfeitissimamente, Um-Qualquer-Senhor-Secretário-de-Estado- da-Censura. No entanto, continuo sem compreender a sua atitude. Afinal de contas, o Sr. é Um-Qualquer-Senhor-Secretário-de Estado-da- Censura e supostamente deveria defender a ERC…

U.S.S.E.C— Sabe, vou ser sincero consigo. Eu não sou Um-Qualquer- Senhor-Secretário-de-Estado-da-Censura….

S.A.— Que estranho…Afinal, quem é o senhor?

U.S.S.E.C— Sou o marido da recepcionista. Este desfecho foi brilhante, não foi?
Sarja Akhmani, repórter iraniano

SUA SANTIDADE EL DEPUTADO RAMON CAVALO





Ramon Cavalo é, sem dúvida, um dos mais notáveis e desconcertantes El deputados da nossa praça. Homem de Cultura e de princípios inabaláveis, foi desovado aqui há anos por “Eco-na-erva”, uma égua comanche nada e criada no Alto do Pina.


Criança precoce, cedo se evidenciou pela retórica luzidia dos seus muito cavalares silêncios. De registar que já aos sete anos de idade espairecia todos os dias pelas ruas daquela belíssima aldeia, o cachimbo de cavalo encravado na cultíssima boquinha cor-de-rosa, o narizito de relincho de muito hábil cavalgar, um cravo de Abril a pender-lhe da humana orelhinha direita.


Volvidos alguns anos, o “cachimbo do Alto do Pina” (como era então vulgarmente conhecido) encostou-se às pintinhas cor de laranja do PPD/PSD de José Sócrates.


Como não podia deixar de ser, o pior de entre os piores repórteres iranianos a viver actualmente em Portugal, Sarja Akhmani de seu nome, foi encontrar El deputado Ramon Cavalo nos Passos Perdidos. Desse pouco recomendável encontro resultou a conversa que ora passamos a relatar:


Sarja Akhmani (S.A) — Ora viva, sr. Ramon Cavalo. Bons olhos o vejam!

Ramon Cavalo (R.C.) — Sarja, meu amigo. Já de regresso a Portugal? Espero que desta vez tenha vindo para ficar…Nem sei como consegue conviver com tipos tão incultos como os americanos…

S.A— Amigo Ramon, já alguma vez teve amigos americanos?

R.C. — Ora, toda a gente sabe que os americanos são incultos. Um país provinciano, uma literatura paupérrima. Para tal, basta ler alguns autores americanos actuais: o Paul Auster, o Philip Roth e o Don Delillo, por exemplo…Absolutamente execráveis…Isto para já não falar do Walter Whiteman

S.A—Walt Whitman…

R.C. — Exacto. Não era esse que gostava de engatar marinheiros?

S.A— A sexualidade equídea é muito complexa e todo o cavalo tem direito a escolher o tipo de cavalariça onde deseja dormir.

R.C. — Apesar de ser uma espécie em vias de extinção, prefiro ir pescar baleias ali para as bandas do Cabo Espichel, e depois levá-las a jantar ao Tavares Rico…Coisas de cavalos, não é verdade?

S.A— De qualquer das formas, não é o Whitman que me traz hoje aqui, mas as políticas do governo PPP/PSD de José Sócrates.

R.C. — E lembrou-se de mim, não é verdade? Pois fez muito bem. Venham daí as perguntas que tanto eu como o meu cachimbo teremos muito gosto em responder.

S.A— Amigo Ramon Cavalo, posso saber se já debitaram o subsídio de natal na sua conta bancária?

R.C. — Mas é claro que sim! Os compromissos são para cumprir, não é verdade?
S.A—Sabia que o seu governo achou por bem privar os professores universitários de receber o respectivo subsídio?

R.C. — Sabe, o meu governo tem vindo a desenvolver políticas sociais que visam retirar privilégios a três poderosíssimos lobbies do nosso país: os deficientes, os reformados, e os professores universitários.

S.A— Sempre tive uma visão bastante negativa do academismo balofo de certos “mestres”. No entanto, há excepções, e não se pode negar que, de um modo geral, os professores universitários têm dado um contributo importantíssimo ao nosso país, não lhe parece?

R.C. — Não seja ingénuo, Sarja! O que eles querem é estudar gajos mariconços como o tal de Walter Whiteman.

S.A—Além de fraca, a sua resposta é a prova provada que de nada vale estudar livros sobre o Humor e a escrita humorística de autores como Freud, Henri Bergson e Mel Helitzer…

R.C. — Ahn? Está a falar de escritores americanos, não é verdade? Era o que eu dizia: não prestam para nada.

S.A—E quanto aos reformados, Ramon Cavalo? Parece-lhe bem que o seu PPD/PSD lhes faça a vida negra?

R.C. — Francamente, Sarja, você é básico. Afinal de contas, para que é que precisamos de reformados se somos reformistas? Será que você não se apercebe da contradição?

S.A— Mais uma resposta sem piada nenhuma. Isto vai de mal a pior. Adiante. E os deficientes?

R.C. — Bem, esses são uma questão àparte. Os deficientes constituem uma espécie de síntese social dos reformados e dos professores universitários.

S.A— Como assim!?

R.C. — Repare, se os deficientes não estudarem muito bem a sua deficência não se tornam deficientes, mas reformados, não é verdade? Entretanto, aqueles que concluíram a tese gastaram rios de dinheiro do erário público. Sendo assim, é justo que percam algumas regalias, não acha?

S.A— Já não acho nada. Bom, será que poderíamos mudar de assunto? Podemos falar, por exemplo, das duas vertentes do El deputado Ramon, a do homem e a do cavalo?

R.C. — Com certeza. Venham daí as perguntas que tanto eu como o meu cachimbo teremos muito gosto em responder.

S.A— Qual tem sido a sua actividade equidea e humana na Assembleia da República?

R.C. —Como deve ter tido conhecimento através dos jornais, faço parte de uma comissão que fundou o OPCTS (Observatório Parlamentar das Comissões que Trabalham a Sério). Isto é duro de roer, amigo. Há tipos como o Manuel Alegre, e gajos do PCP e do Bloco de Esquerda que levam isto mesmo muito a sério. Enfim, uma trabalheira dos diabos. Para eles, como é óbvio.

S.A— Um El deputado como você deve ter muito tempo de sobra, não é verdade?

R.C. — Sabe, ver os outros bastante atarefados é uma função duríssima. Vou dar-lhe um exemplo: quando me apercebo que alguns tipos vão ficar aqui a estudar dossiers até tarde, pego em mim, vou até ao cabo Espichel, pesco uma baleia, janto com ela no Tavares Rico, e depois venho até cá observar melhor esses cavalos que mais não fazem senão trabalhar.

S.A.— Já ouvimos essa história. No entanto, noto em si uma diferença assinalável: parece-me um pouco mais calmo, um pouco mais mais adulto, mais compenetrado. Estarei enganado?

R.C.— Tem toda a razão. Sabe, de tanto observar quem trabalha no duro, tornei-me monge budista. A história resume-se a muito pouco. Anteontem, ouvi dizer que o Budismo estava na moda e esta manhã acordei budista. Foi uma coisa bastante rápida, nem sei explicar como é que aconteceu. Por isso, agradeço que me passe a tratar não só por Cavalo, mas também por Sua Santidade. Sua Santidade Ramon Cavalo.

S.A.— Sua Santidade Ramon Cavalo, posso então concluir que você é contra todo o tipo de violência, certo?

S.S.R.C..— Com efeito, o meu cachimbo é visceralmente contra todo e qualquer tipo de violência.

S.A.— Não será, portanto, difícil de inferir que, em caso de agressão, você até iria agradecer…

S.S.R.C.— Exacto.

S.A.— Sendo assim, permita-me, Sua Santidade Ramon Cavalo, que lhe dê uma sova budista por todos os disparates que produziu ao longo desta conversa?

S.S.R.C.— Faça o favor. A sova é sua. Cavalo budista que se preze tem tempo de sobra e lombo onde leve.


Sarja Akhmani, repórter iraniano